Wednesday, April 30, 2014

No caminho do mercado

- Boa tarde.
- Boa tarde.
- Meu nome é Pedro, eu sou morador de rua. Eu vim pedir um minuto da sua atenção.
- Pois não?
- Eu e a minha companheira, Paula, moramos na rua.
- ...
- Nós gostaríamos de estar pedindo a sua colaboração espontânea.
- Tipo o quê?
- Nós estamos pedindo uma colaboração espontânea para o pessoal do bairro afim de viabilizar a nossa subsistência.
- Esmola.
- Nós não vemos deste modo.
- Tá, você quer que eu colabore como?
- Se você tiver um trocado, um vale, um passe de ônibus.
- Ah, tá. Desculpa. Não tenho, não.
- Tudo bem. Você já colaborou doando a sua atenção.

(Pausa intrigada)

- Vem cá, ô, Pedro, vocês tem treinamento?
- Na ocip eles ensinam tecnica de relacionamento com o cliente.
- Na...
- No abrigo. Tem cursos de relacionamento, de conscientização...

"E ensinar a levantar uma parede de tijolo, ninguém ensina, né?" - penso em dizer, mas não quero parecer, sei lá, antipática. Digo: "Ahn, legal.", faço um sinal de positivo com a mão, sorrio e vou embora.



Thursday, April 24, 2014

O existencialismo ao meu alcance


Poeminha existencialista *         
(por Lucia S.)

Se um dia eu nascesse peixe
Isto não me afligiria
Fosse eu um peixe azul
Um salmão ou uma enguia
Que diferença faria?

Se um dia eu nascesse peixe
Eu nem disto saberia.

Se um dia eu nascesse  gato
Eu toda me enroscaria
Deitaria na almofada
E me espreguiçaria
Até o cair do dia.

Se um dia eu nascesse gato
Eu apenas viveria

Se um dia eu brotasse um coco
Provavelmente seria
Despreocupada do tronco
Vertigem eu não teria
Simplesmente eu cresceria.

Se um dia eu brotasse um coco
Eu amadureceria.

Se eu me tornasse uma estrela
Queimaria e queimaria,
E muitos milhões de anos
Depois eu me tornaria
Um grande buraco negro
Que a tudo devoraria

Se eu me tornasse uma estrela
Eu comprovava a teoria.


Se eu mesma fosse eu
Muito me agradaria
Entender muito mais coisa
Do que eu compreendia
E ser muito mais que um gato
Ou um coco eu quereria
E mesmo sabendo disto
Nada mais eu saberia

Se eu mesma fosse eu
Eu acho que eu me perdia.


*originalmente publicado no blog O Chaveco, idos de 2003/4











Monday, April 14, 2014

A Fazedora de Malas


- Eu simplesmente não consigo fazer malas - ela disse, ao contratar a personal stylist.

Não era verdade. Dora era capaz de abrir uma mala, colocá-la sobre a cama e enchê-la de roupas. Só não era capaz de ficar satisfeita. Fazia e desfazia as possíveis combinações de calça, blusa, saia e casaco até beirar a histeria. Depois jogava tudo no chão, chorava, dizia que não tinha nenhuma roupa e que não iria viajar.

Levava duas ou três malas a cada viagem de férias. O marido nem se manifestava mais. Qualquer observação sobre o excesso de bagagem causaria mais transtorno do que carregá-las.

Mas Dora sabia. Por isso chamou-lhe a atenção o anúncio que viu num canto de página de um blog de moda: "Enjoou de tudo? Contrate uma personal stylist para dar nova vida ao seu guarda-roupa" e, em letras menores, a isca: "Ajudamos a organizar sua mala de viagem".  Ligou no mesmo dia.

No primeiro encontro com a personal (uma mocinha muito solícita cujo nome Dora jamais conseguiria lembrar), foi combinado que ela faria as malas para uma viagem de dez dias em Londres. A profissional teria acesso irrestrito ao closet da cliente e escolheria as peças com total autonomia. Dora não queria nem saber, nem ver, o que iria na bagagem.

O sistema parecia eficiente: a cliente só precisava fornecer uma programação do que pretendia fazer em sua viagem - compras, visitar museus, ir à ópera, etc. - e dar como referência uma calça e uma blusa que lhe servissem bem. Todo o resto ficava por conta da fazedora de malas, inclusive verificar a previsão do tempo e as tendências cromáticas da estação.

Em um par de horas o serviço estava feito! Sobre um banco, ao lado da cama, uma grande mala louis vuitton continha meia dúzia de looks de saia/blusa/calça/casaquinho, além de duas opções de festa e um modelo esportivo para o caso de Dora decidir usar a academia do hotel. Numa exacerbação de profissionalismo, a jovem personal imprimiu uma lista com todas as sugestões de combinações, incluindo bijuterias, sapatos e meias.

"Fácil demais", Dora pensou. Ao preencher a folha de cheque, sentiu que aquele dinheiro todo merecia mais trabalho. "Meu anjo", disse, segurando o cheque, "Você arrumaria meu guarda-roupa antes de ir? Afinal, estou pagando uma diária cheia". 

"Sem problemas", a moça concordou, "Me diga o que você quer."

Dora não sabia bem o que queria: "Eu tenho roupas demais. Separe o que me cai bem, minha querida."

A personal provou eficiência, retirando do armário roupas visivelmente ultrapassadas e, demonstrando virtuosismo, as roupas que provavelmente não serviam mais em Dora. Fez uma pilha grande no chão do quarto e pediu que a cliente aprovasse:

- O que ficou no guarda-roupa é o que lhe serve. O que está aqui, se você me permite, eu sugiro vender para um brechó.

- Faça como achar melhor, meu bem - disse Dora, com um aceno de mão que deixava clara a sua indiferença - Por mim, você pode até doar tudo pro Exército da Salvação.

Entregou o cheque à profissional, agradeceu o trabalho e despediu-se com um beijo no rosto, enquanto falava ao celular, conversando com o marido sobre detalhes da viagem no dia seguinte.

Com a autonomia que lhe foi dada, a garota procurou e encontrou uma mala grande e gasta, de imitação de couro, preta, sem rodinhas e com a alça solta de um lado. Colocou nela as roupas para doação, fechou e encostou-a num canto do quarto.  Ao terminar o trabalho, chamou a cliente para se despedir.

Dora deu uma olhada no quarto e viu a mala preta. Um espasmo de desgosto passou pelo seu rosto:

- Não vai levar as roupas velhas?
- É muita coisa e eu não tenho carro - explicou a jovem -  Mas posso ligar para alguma instituição vir recolher aqui.

A cliente deu um sorriso de alívio e virou as costas, enquanto a garota ligava para descobrir quem poderia buscar as roupas ainda naquela tarde. Antes de sair, instruiu a empregada da casa: "Estão vindo buscar umas roupas da dona Dora, é uma mala preta que está no quarto".

Ninguém apareceu para buscar as roupas à tarde, nem à noite. Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, Dora relembrou a empregada que alguém viria recolher umas roupas velhas e ligou para o marido, pedindo que ele passasse no seu escritório para irem direto para o aeroporto à noite.

No meio do dia, Dora lembrou que não tinha trazido a bagagem, e pediu à secretária que fosse até sua casa e pegasse sua mala. Quando ouviu a campainha, a empregada imediatamente foi buscar a velha mala de courino preto, que entregou alegremente à secretária de Dora.

Às cinco e meia, o marido de Dora apareceu no escritório, para apanhá-la.

- A mala está com a minha secretária - disse Dora, apressada, ao marido, enquanto conferia passaporte, cartão de crédito e contratava o plano de roaming pelo celular. Ele estranhou a aparência da mala mas, como sempre, achou melhor não discutir. Colocou-a no bagageiro do carro e partiu para o aeroporto, já atrasado pelo trânsito de sexta feira.

Às seis da tarde daquele mesmo dia, tocaram a campainha de Dora. Era o Exército da Salvação. Tinham vindo buscar uma mala com roupas. A empregada ficou confusa.

- Ué. De novo? 

Desconfiada, foi até o quarto da patroa e, perto da cama, encontrou uma outra mala, marrom-dourada. Abriu-a: cheia de roupas. Deu de ombros. "Ninguém me explica nada", pensou.


Entregou a mala para o rapaz credenciado, que disse "Deus lhe abençoe", agradeceu e foi embora, levando consigo uma seleção exclusiva feita por uma personal stylist.

Friday, March 21, 2014

Titcher Gata

Na minha quadra tem duas faculdades. Consequentemente, na minha quadra, tem 8 botecos. Às dez da manhã os guris já estão espalhados pela calçada, fazendo a sua gloriosa gazeta (valei-me, Rubem Braga) e assim seguem pelo resto do dia, num rodízio por bares, mesas e calçadas.

Passo pela rua e um ou outro me cumprimenta: "Fala, Titcher".

Minha dúvida é se os alunos que me cumprimentam  (a) realmente acham que eu sou professora deles; (b) pensam que eu dou aula na outra faculdade; (c) ainda não foram pra aula este ano.

Aí hoje eu voltava do almoço e passei na frente das mesas do boteco:

"Aê, titcher gata"
"É por isto que eu vou pra escola"

Sensacional.





Thursday, March 13, 2014

Paulo Goulart


Assisti Paulo Goulart, de pertinho, na peça Evangelho Segundo Jesus Cristo, onde ele interpretava Deus - divinamente. 

Desde então, a minha imagem de Deus passou a ser alguém parecido com o Paulo Goulart. O porte, a gravidade, o gesto definitivo e, ao mesmo tempo, desprendido e, sem dúvida, aquela voz. Era a voz que Deus teria, se eu a ouvisse. 

Um ano mais tarde, a voz de Paulo Goulart abria o espetáculo A Bela e a Fera, do qual participei por dois anos. Era dele a narração que explicava como o jovem príncipe foi transformado numa fera horrenda. Por cerca de 600 sessões, no escuro da coxia, ouvimos a voz de Deus nos dando a deixa para entrar em cena e ir para a luz.

Vale aqui uma anedota, que desvia um pouco o assunto, mas não deixa de ser legal: uma conhecida que foi assistir A Bela e a Fera algumas vezes perguntou "E o Paulo Goulart, hein? Ele é legal? Ele não acha chato ir pro teatro toda noite só pra falar aquele começo?"*

*como não respondi na época, explico agora: querida, era uma gravação

E já que estamos nas anedotas, lembrei de outra (bem antiga): um grande violinista morreu e foi pro Céu. Lá chegando, foi imediatamente encaminhado para a Grande Orquestra do Céu. Quando olhou pro pódio, viu o Maestro Karajan e comentou com o músico ao seu lado: "Mas o maestro Karajan morreu?" e o músico respondeu: "Não, este aí é Deus. Ele PENSA que é Karajan."**

**esta piada tinha mais graça quando o Maestro Karajan era vivo

Toda esta divagação para desejar uma boa passagem a Paulo Goulart, artista criador, e agradecê-lo por todas as lembranças boas que nos deixou e pela inspiração que fica em nós.

E aí, quando chegar no Céu, imagino que Deus vai dizer: "Pô, Paulo, que bom que você chegou, me ensina aí a fazer esta voz que eu venho tentando imitar há uns 6000 anos". 

 

Paulo Goulart (1933-2014) <3

Monday, March 10, 2014

Habibi - dos encontros

No final de semana tive uma abençoada tarde preguiçosa e fui passar o tempo na livraria Hai Kai, na praça Vilaboim, no Higienópolis. Compro ali os meus cadernos de capa colorida, é um mundo para se perder, um caderno mais lindo que o outro, sempre oferecendo promessas de inspiração diante daquelas páginas com borda laminada, estampas de pavão, gatos, patchwork, uma perdição.

Um vendedor me viu olhando as histórias em quadrinhos e veio conversar comigo. Após uma rápida introdução, me sugeriu um livro enorme, "Habibi", de Craig Thompson, um tijolo de 700 páginas. Como não saí correndo, ele continuou a me contar a história do livro e porquê eu deveria lê-lo. 

Ao discorrer sobre os episódios do livro, Pedro - era o nome do vendedor  - estava perceptivelmente emocionado. Eu decidi: "Ok, vou levar" e ele, ao me entregar o pacote, disse: "Quando terminar, venha conversar sobre o que achou". 

E eu senti que o garoto, por doce que fosse, não estava me passando nenhuma cantada. Ele realmente queria compartilhar com alguém a experiência que aquele livro lhe proporcionou.


Bom, li o livro em 2 dias. É bonito, mesmo. 

Falo mais sobre ele num próximo post. Por enquanto, fica a minha gratidão ao Pedro, que o recomendou assim: "Este é o livro que você quer ler". 






Wednesday, February 12, 2014

"Nunca desista de seus sonhos"(?)

Como vou dizer isto? 

O conselho, aparentemente benigno, às vezes me soa como uma sentença perpétua, uma roda para hamsters obsessivos. Quase uma crueldade, pois presume que "só não consegue quem desiste".  E quem é que consegue alguma coisa sem desistir de outra?

"Acredite em você" também pode ser uma armadilha. Depende muito de quem você sabe ser. Ou pode ser o caminho certo para a ilusão completa.



Porque, pense bem, este rinoceronte nunca vai ser um unicórnio.

Se, por um lado, os sonhos são o alimento da nossa alma, por outro, podem ser ilusões que nos aprisionam num padrão forjado.

Voltando ao rinoceronte, ele escolheu tentar ser um unicórnio ao invés de ser ele mesmo. Então ele pode confundir, intrigar e até convencer alguns, mas não passa de um simulacro, uma repetição ruidosa de um sinal já emitido.

E se ele tentasse entender quem ele é?

E se o Rinoceronte descobrisse que ele é um animal forte, belo, raro? Se ele decidisse ser o melhor e mais forte e temido rinoceronte, se ele resolvesse pintar o seu chifre de azul fosforescente, para ser um rinoceronte muito louco e mítico e mágico, e se ele percebesse que ele tem muito mais chance de ser incrível como o rinoceronte que é?

Desistir, às vezes, pode ser a cura.